Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, nascido em 1971. Residente em Ribeirão Preto, SP. Casado com a Professora Ana Lúcia Grici Zacarin. Acadêmico da ALAMI. Graduado em Engenharia Mecânica, UFMG, e Letras, UFSCar; doutorado em Engenharia Mecânica, USP.
Publicações:
Poesia: “O Livro do Verbo”
Contos: “Seres e sombras”; “Coreografia dos danados”;
“Cidade devolvida”
Romance: “As espirais de outubro”
“III Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“IV Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“V Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“I Antologia de Contos” — ALAMI
Antologias do Concurso de Contos Luiz Vilela
Antologias do Concurso Newton Paiva
Antologias do Mapa Cultura Paulista
Antologias do Prêmio Barueri de Literatura
Antologias da Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Antologias da Editora Blocos
Prêmios:
Whisner Fraga conquistou vários prêmios literários, destacando-se, dentre eles, o Prêmio Edições Galo Branco, 2002, Rio de Janeiro; o 17.º Concurso de Contos Luiz Vilela, 2007, com o conto “sonâmbulos”
e um conto seu, "Desacertos" (leia-o abaixo), foi selecionado no
3.º Concurso Contos do Tijuco, organizado pela ALAMI.
* * * * *
Desacertos
Era sexta-feira
quando ela passou, judiciosa e cabisbaixa, pela vizinha alerta.
Os sapatos da promoção atacavam os vértices dos dedos, num
galope de quem possui calos bem mais doloridos ou pedras maiores
a superar pelo caminho. Em casa, a mão instintivamente apalpa o
cromo da maçaneta. Nicanor, a uma hora daquelas, já aturava a
rabugice de um torno, produzindo as melhores peças da fábrica de
redutores. Rosa antevia o chuveiro jateando em seus ombros uma
água reconfortante. Após a jornada cansativa, de telefonemas
engraçadinhos, críticos ansiosos por uma cobaia para desfiar
suas inseguranças, informações que os clientes podiam encontrar
no guia de assinantes, trotes inconsequentes, ela não se julgava
mais obrigada a delicadezas. Ali era outra, sentia-se,
possuidora de algo, mesmo que do vislumbre de uma liberdade
momentânea, porém essencial, restauradora.
Não lhe importava tanto esta ausência
de Nicanor, fato que às vezes a assustava, porque era devota de
uma obrigação para com esse amor que não podia escassear por um
motivo remediável. Fora sábado a última vez a se verem. Três
semanas distantes um do outro era o recorde, uma regalia da
metrópole. Se ao menos morassem mais perto do trabalho, se ao
menos tivessem um carro, se ao menos fosse suficiente uma única
condução para vencer a distância do lar ao ganha-pão, se ao
menos não precisasse sempre vender as férias, se ao menos se,
se, se. A contabilidade dos planos, a aritmética das escolhas,
uma balança viciada, um impecável martírio a se aventurar pelas
primeiras rugas. Era assim que se aproximavam da meia-idade.
Querem um filho sim, mas também
desejam estar juntos durante o primeiro passo, a palavra
inicial, quando todas as etapas do crescimento puderem ser
vigiadas pela sua curiosidade de pais. Na saúde e na doença, na
alegria e na tristeza, no cair e no levantar de sua primeira
criança. Eis o plano: durante dez anos esquecer as reclamações e
aproveitar as horas-extras, as gratificações, os adicionais
noturnos, banquetear até o pão que o diabo amassou. Para então
ser donos do próprio comércio, uma pequena padaria, cujo nome já
vagalumeava no protocolo dos sonhos: cisne negro. Não se
atinavam com as razões para este nome tão incomum, seria a
infância insurgindo-se contra essa febril necessidade da vida
adulta?, sim, provavelmente que seria por causa da fábula, o
pequeno e feio animalzinho das suas dificuldades se tornando uma
majestosa ave de bons negócios.
E no intervalo acumular pequenas
raivas, mas sem deixar que o copo transborde, não necessitavam
dessa gota d’água, não era o que acalentava para ambos. Tão
delicada de noiva, a inconsequência das promessas, daí depara-se
com a toalha ainda úmida na orla da pia, encontrar o marido num
fio, entregar-se. Uma sinuosa tristeza se aproxima, quando
cogita sobre alguma possibilidade de abandoná-lo, um romantismo
que lhe rendeu alguns clichês, alardeavam as fofoqueiras. Se
fosse assim, que viessem as músicas do Amado Batista, do
Leandro, do Rei. Medo do ridículo? Não na sua condição. Havia
também os bilhetes, quando expunha sua paixão em versos muito
abaixo da crítica. Era a medida do que a carcomia, o papel.
O perfume, um hálito rubro na nuca
assim que fecha os olhos. Restava-lhe este respirar ansioso, o
desejo sofreado arrastando às mãos, percorrendo a pele
obediente, um experimentar jamais solitário, era o seu jeito de
evitar o arrefecimento, ele compreendia quando falavam disso e
até ria com a quina dos olhos, meio aturdido com o ciúme, meio
orgulhoso da ousadia e finalmente percebia que era por ele: o
corpo fatigado se renovava e então acontecia novamente na mesma
cama em que agora ela apertava o travesseiro entre os arcos das
pernas.
Depois o café, depara-se com xícaras
sujas. Percebe um vestígio de culpa hesitando na consciência,
zomba do desmazelo de Nicanor, mas está contente por poder
chegar a boca à borda e sorver saudosa o fantasma daqueles
lábios. E agora era provável que ele estivesse preocupado apenas
com o trabalho, maldito, por que só ela a se desassossegar por
ambos?, era capaz que ninguém se desse conta de suas
inquietações.
Um ruído aguado, entorpecido, sobe
até o quarto, indiferente à lingerie que faísca em sua carne. Só
pode ser Nicanor, mas a uma hora dessas? Por quê? Desce: um
corisco.
Ele, sôfrego, embaralha palavras. Então, homem, o que é isso?,
desse jeito você sofre um ataque do coração! Impaciência: jamais
saíra antes do término do expediente. Ele lhe diz dos cortes nos
gastos, a emoção fulminando a lógica, fala das demissões, de
planos a e b, como se justificasse seus patrões (os defendesse
até), e ela compreende: despedido, o que fariam? Enfrentariam
juntos, um modo de fortalecer o relacionamento, vencer desafios,
não eram uma equipe?, o raciocínio ao estilo da empresa,
montaria a sua também, de exímios trabalhadores (calma, meu
bem). Ela se desespera, mexer na poupança, adiar a descendência,
suportaria mais esse baque? — Engravidar aos quarenta, quarenta
e poucos? Arriscado.
Mas era inteira Piedade, deveria ser
este seu nome se não fosse Rosa, o que também apresenta uma
incerta lógica. Sssshhhh, foi o que sussurrou, acolhendo a mão
de Nicanor nas conchas das palmas, avaliando a camuflagem de
mulher corajosa, de mártir, dali a pouco se postaria de joelhos,
se fosse esta uma história católica, mas não sendo, conduz seu
homem ao quarto, onde sustêm um abraço angustiado. Enquanto a
fragilidade do tato procura o desafogo dessa ansiedade
liquidificada num pomposo ponto de interrogação. Seria ali,
agora? Havia uma brecha entre as febres daquela escuridão
(deviam se mudar para uma casa menor? como pagarão a conta de
luz? será que ele conseguirá outro emprego?), por onde se
esgueirar a presunção do desejo?
Embora tímidos, não pela educação
rígida, mas pelo tempo sem contato, perdidos em si, e então,
mesmo amantes, não ousam imediatamente a liberdade dos toques,
entreolhando-se silenciosos, inconscientes da prisão, não sabem
o que será dali para frente.
Não sabem mais.
* * * * *
Leia minicontos de Whisner Fraga
Acesse o BLOG do escritor Whisner Fraga