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Whisner Fraga

Cadeira 58 — LITERATURA
Cadeira 58 — LITERATURA
Patrono:
Fernando Sabino


     

     Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, nascido em 1971. Residente em Ribeirão Preto, SP. Casado com a Professora Ana Lúcia Grici Zacarin. Acadêmico da ALAMI. Graduado em Engenharia Mecânica, UFMG, e Letras, UFSCar; doutorado em Engenharia Mecânica, USP.

Publicações:
Poesia: “O Livro do Verbo”
Contos: “Seres e sombras”; “Coreografia dos danados”;
“Cidade devolvida”
Romance: “As espirais de outubro”
“III Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“IV Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“V Antologia de Poetas de Ituiutaba” — ALAMI
“I Antologia de Contos” — ALAMI
Antologias do Concurso de Contos Luiz Vilela
Antologias do Concurso Newton Paiva
Antologias do Mapa Cultura Paulista
Antologias do Prêmio Barueri de Literatura
Antologias da Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Antologias da Editora Blocos

Prêmios:
Whisner Fraga conquistou vários prêmios literários, destacando-se, dentre eles, o Prêmio Edições Galo Branco, 2002, Rio de Janeiro; o 17.º Concurso de Contos Luiz Vilela, 2007, com o conto “sonâmbulos” e um conto seu, "Desacertos" (leia-o abaixo), foi selecionado no 3.º Concurso Contos do Tijuco, organizado pela ALAMI.
 

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Desacertos

 

Era sexta-feira quando ela passou, judiciosa e cabisbaixa, pela vizinha alerta. Os sapatos da promoção atacavam os vértices dos dedos, num galope de quem possui calos bem mais doloridos ou pedras maiores a superar pelo caminho. Em casa, a mão instintivamente apalpa o cromo da maçaneta. Nicanor, a uma hora daquelas, já aturava a rabugice de um torno, produzindo as melhores peças da fábrica de redutores. Rosa antevia o chuveiro jateando em seus ombros uma água reconfortante. Após a jornada cansativa, de telefonemas engraçadinhos, críticos ansiosos por uma cobaia para desfiar suas inseguranças, informações que os clientes podiam encontrar no guia de assinantes, trotes inconsequentes, ela não se julgava mais obrigada a delicadezas. Ali era outra, sentia-se, possuidora de algo, mesmo que do vislumbre de uma liberdade momentânea, porém essencial, restauradora.
        Não lhe importava tanto esta ausência de Nicanor, fato que às vezes a assustava, porque era devota de uma obrigação para com esse amor que não podia escassear por um motivo remediável. Fora sábado a última vez a se verem. Três semanas distantes um do outro era o recorde, uma regalia da metrópole. Se ao menos morassem mais perto do trabalho, se ao menos tivessem um carro, se ao menos fosse suficiente uma única condução para vencer a distância do lar ao ganha-pão, se ao menos não precisasse sempre vender as férias, se ao menos se, se, se. A contabilidade dos planos, a aritmética das escolhas, uma balança viciada, um impecável martírio a se aventurar pelas primeiras rugas. Era assim que se aproximavam da meia-idade.
        Querem um filho sim, mas também desejam estar juntos durante o primeiro passo, a palavra inicial, quando todas as etapas do crescimento puderem ser vigiadas pela sua curiosidade de pais. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, no cair e no levantar de sua primeira criança. Eis o plano: durante dez anos esquecer as reclamações e aproveitar as horas-extras, as gratificações, os adicionais noturnos, banquetear até o pão que o diabo amassou. Para então ser donos do próprio comércio, uma pequena padaria, cujo nome já vagalumeava no protocolo dos sonhos: cisne negro. Não se atinavam com as razões para este nome tão incomum, seria a infância insurgindo-se contra essa febril necessidade da vida adulta?, sim, provavelmente que seria por causa da fábula, o pequeno e feio animalzinho das suas dificuldades se tornando uma majestosa ave de bons negócios.
        E no intervalo acumular pequenas raivas, mas sem deixar que o copo transborde, não necessitavam dessa gota d’água, não era o que acalentava para ambos. Tão delicada de noiva, a inconsequência das promessas, daí depara-se com a toalha ainda úmida na orla da pia, encontrar o marido num fio, entregar-se. Uma sinuosa tristeza se aproxima, quando cogita sobre alguma possibilidade de abandoná-lo, um romantismo que lhe rendeu alguns clichês, alardeavam as fofoqueiras. Se fosse assim, que viessem as músicas do Amado Batista, do Leandro, do Rei. Medo do ridículo? Não na sua condição. Havia também os bilhetes, quando expunha sua paixão em versos muito abaixo da crítica. Era a medida do que a carcomia, o papel.
        O perfume, um hálito rubro na nuca assim que fecha os olhos. Restava-lhe este respirar ansioso, o desejo sofreado arrastando às mãos, percorrendo a pele obediente, um experimentar jamais solitário, era o seu jeito de evitar o arrefecimento, ele compreendia quando falavam disso e até ria com a quina dos olhos, meio aturdido com o ciúme, meio orgulhoso da ousadia e finalmente percebia que era por ele: o corpo fatigado se renovava e então acontecia novamente na mesma cama em que agora ela apertava o travesseiro entre os arcos das pernas.
        Depois o café, depara-se com xícaras sujas. Percebe um vestígio de culpa hesitando na consciência, zomba do desmazelo de Nicanor, mas está contente por poder chegar a boca à borda e sorver saudosa o fantasma daqueles lábios. E agora era provável que ele estivesse preocupado apenas com o trabalho, maldito, por que só ela a se desassossegar por ambos?, era capaz que ninguém se desse conta de suas inquietações.
        Um ruído aguado, entorpecido, sobe até o quarto, indiferente à lingerie que faísca em sua carne. Só pode ser Nicanor, mas a uma hora dessas? Por quê? Desce: um corisco.
Ele, sôfrego, embaralha palavras. Então, homem, o que é isso?, desse jeito você sofre um ataque do coração! Impaciência: jamais saíra antes do término do expediente. Ele lhe diz dos cortes nos gastos, a emoção fulminando a lógica, fala das demissões, de planos a e b, como se justificasse seus patrões (os defendesse até), e ela compreende: despedido, o que fariam? Enfrentariam juntos, um modo de fortalecer o relacionamento, vencer desafios, não eram uma equipe?, o raciocínio ao estilo da empresa, montaria a sua também, de exímios trabalhadores (calma, meu bem). Ela se desespera, mexer na poupança, adiar a descendência, suportaria mais esse baque? — Engravidar aos quarenta, quarenta e poucos? Arriscado.
        Mas era inteira Piedade, deveria ser este seu nome se não fosse Rosa, o que também apresenta uma incerta lógica. Sssshhhh, foi o que sussurrou, acolhendo a mão de Nicanor nas conchas das palmas, avaliando a camuflagem de mulher corajosa, de mártir, dali a pouco se postaria de joelhos, se fosse esta uma história católica, mas não sendo, conduz seu homem ao quarto, onde sustêm um abraço angustiado. Enquanto a fragilidade do tato procura o desafogo dessa ansiedade liquidificada num pomposo ponto de interrogação. Seria ali, agora? Havia uma brecha entre as febres daquela escuridão (deviam se mudar para uma casa menor? como pagarão a conta de luz? será que ele conseguirá outro emprego?), por onde se esgueirar a presunção do desejo?
        Embora tímidos, não pela educação rígida, mas pelo tempo sem contato, perdidos em si, e então, mesmo amantes, não ousam imediatamente a liberdade dos toques, entreolhando-se silenciosos, inconscientes da prisão, não sabem o que será dali para frente.
        Não sabem mais.

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