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Edson Angelo Muniz

Diretor de Imprensa da ALAMI — Cadeira 26 — LITERATURA
Diretor de Imprensa da ALAMI — Cadeira 26 — LITERATURA

        Edson Muniz nasceu em 1956, em Ituiutaba, MG, filho de João Angelo de Oliveira, o Neinho, e Dorcina Muniz de Oliveira. Graduou-se em Tecnologia em Processamento de Dados pelo ISEPI — Instituto Superior de Ensino e Pesquisa de Ituiutaba. É genealogista, historiador, poeta, compositor, cantor e designer gráfico. Autor do livro "Família Muniz — Tronco do Triângulo Mineiro" (Egil, 2002), de genealogia e história. Em 2004, tornou-se acadêmico da ALAMI — Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba — sendo o patrono de sua cadeira o jornalista e ex-prefeito de Ituiutaba, Acácio Alves Cintra Sobrinho. Participou da "Antologia de Contos" (Egil, 2005) e da "IV Antologia de Poetas de Ituiutaba" (Egil, 2006), ambas editadas pela ALAMI. Como historiador, em outubro de 2006, elaborou um documento — que entregou, em mãos, ao prefeito de Ituiutaba, e, posteriormente, em janeiro de 2008, entregou-o também ao presidente da Câmara Municipal —, apontando erros no brasão e na bandeira do município, importantes símbolos culturais da cidade, além de incluir sugestões para a sua correção. Ainda na área da Heráldica, ele colaborou na criação do Brasão da Diocese de Ituiutaba. Atualmente, Edson exerce as funções de gerente administrativo e responsável gráfico da Egil, onde atua também como conselheiro editorial, editor, revisor e arte-finalista. Está pesquisando, para seu segundo livro, também de genealogia e história, "Família Angelo — Tronco do Triângulo Mineiro", e escrevendo o livro de ficção, "O robô de bom coração", que será lançado em breve. Edson Angelo Muniz é Presidente do Conselho Curador da Fundação Cultural de Ituiutaba desde março de 2009.

Contato: edsonmuniz@netzap.com.br

 

* * * * *       

TIORIPE

 

         Há 13 anos que meu pai morreu. Ele me faz muita falta e tenho saudade dele, porém, encontrei duas formas de amenizar a dor da perda: a primeira é pensar que meu pai está viajando em seu velho ônibus Chevrolet, e que um dia vai voltar... e a segunda, em meu íntimo, transformei o Tioripe em uma pessoa mais querida do que ele já era em minha vida, porque ele foi para mim um segundo pai, e preencheu o vazio deixado pelo velho Neinho.

Tioripe era um ser humano que não se preocupava com a vaidade ou com o luxo. A sua preocupação maior era trabalhar, viver bem e se divertir. Era magricelo, mas tinha a força de um leão; nunca foi rico, mas tinha um coração de ouro; não era doutor formado, mas era um especialista em sua fazenda, uma pequena propriedade de onde tirava o sustento de sua família.

A porteira de sua fazenda e as portas de sua casa estavam sempre abertas a todos, e nos finais de semana sua casa se transformava no ponto de encontro de amigos, parentes e vizinhos. E lá ele era um rei, um rei sorridente e brincalhão, que tinha uma marca registrada: ele pegava no lóbulo da orelha de seus filhos, sobrinhos e netos, com o dedão da mão esquerda, que não tinha unha, apertava bem forte e dizia: “Vou matar um coelhinho!”

Gosto de ir à fazenda do Tioripe e da Tia Joana, e sempre que posso eu vou lá. Há dois anos, num sábado, fui visitá-los e levei minha mãe, minha esposa e meu neto. Foi aquela alegria, tanto de nossa parte quanto da parte deles, que nos receberam como sempre: com os olhos brilhando de emoção.

Lembro-me desse dia como se tivesse acontecido ontem...

Depois da lida estafante, Tioripe pegou sua tralha de caça e disse à Tia Joana, sua fiel esposa:

— Joana, vou lá no córrego São Jerônimo, acertar a oreia de uma capivara pra você fazer aquelas almôndegas gostosas, que só você sabe fazer, e assar o lombo pro almoço de domingo. E amanhã eu arranco as mandiocas...

Tia Joana, sempre prestativa, mas preocupada com o bem-estar de seu companheiro querido, disse:

— Oripe, tome cuidado com a onça, hem! E vê se não demora!

— Ela que não é besta de deixar eu pôr os olhos nela, porque onde eu ponho os olhos meto uma bala da minha dois canos. E eu não vou demorar... Vou num pé e volto noutro.

E ele não estava só garganteando, sempre fora um atirador de primeira. A dois canos era uma velha espingarda, que não negava fogo, herança de seu centenário pai.

Quando Tioripe saía para a espera, o sol já havia se deitado atrás da serra. Às vezes ele levava um amigo ou um sobrinho, para ajudar a cercar as capivaras, e eles ficavam em pontos estratégicos, onde os bichos sempre iam beber água; porém, naquela noite ele foi sozinho. Chegou à beira do córrego, escolheu uma árvore onde se empoleirou e ficou à espreita. Matreiro como ele só, Tioripe aprendera a imitar o assobio da fêmea para atrair o macho; o que lhe rendeu o apelido de “Capivara”. Ele assobiou por duas vezes, e logo escutou o barulho de um bicho caindo na água. Preparou a espingarda, segurando uma lanterna rente aos dois canos, e esperou.

Após alguns minutos, no meio do capim alto, ele viu o vulto de uma capivara das grandes, vindo em sua direção. Ela parou a uns dez metros da árvore que servia de jirau ao Tioripe. Ele ligou a lanterna e focou a cara do enorme roedor. Parece que o animal fica hipnotizado pela luz e não sai do lugar. Tioripe, pacientemente, esperou o momento certo, com o dedo triscando o gatilho. Quando a capivara virou a cabeça para sair dali, o “Capivara” apertou o dedo. A capivara deve ter escutado a explosão da espoleta, mas não escutou mais nada porque o balote entrou na sua cabeça “bem no pé da oreia”, como costumava dizer Tioripe. Ela tentou correr, mas as forças lhe escapavam pelo buraco da bala e caiu ali mesmo.

Para carregar o enorme animal, foi preciso Tioripe ir à casa de um vizinho, próxima ao córrego, e chamar o vaqueiro. Tioripe cortou um guatambu de mais ou menos três metros de comprimento, amarrou as patas dianteiras do animal uma à outra, e as patas traseiras do mesmo modo, e passou o guatambu por entre as patas. Levaram a capivara apoiando o guatambu nos ombros. Tioripe ia à frente e o vaqueiro atrás. Quando chegaram à fazenda os ombros de ambos estavam esfolados.

No domingo, a casa do Tioripe estava cheia de convidados. Antes do almoço, peguei o meu velho violão e cantei algumas modas sertanejas, das mais antigas. Alguém me pediu para cantar uma música mais recente, ao que eu respondi: “As novas eu deixo ficar velhas primeiro, só gosto de cantar as velhas!” Antes de trocar o violão pelo prato e a dedeira pelo garfo, cantei um versinho improvisado:

 

            Hoje é um dia de grande alegria,

            tem carne assando, e a Tia Joana não para.

            Vamos cantar com muito carinho,

            parabéns para o Tioripe Capivara...

 

Logo em seguida, cantamos o tradicional “parabéns a você...” E depois fomos comer almôndegas e lombo de capivara, carne de porco, carne de vaca, salada de guariroba, mandioca, arroz e feijão. Esse almoço com muita fartura, regado a cerveja gelada e pinga da boa, foi para comemorar os 66 anos de vida abençoada do Tioripe.

Depois do almoço, as panelas, travessas, pratos, talheres e copos cederam lugar ao baralho, para o tradicional jogo de truco. Raras foram as vezes que Tioripe e eu fomos adversários em uma mesa de truco. Nesse dia fomos parceiros e ganhamos de todos os outros, que faziam fila para o “senta-e-levanta”. Usando na cabeça um boné de pano, desses que as empresas fazem propaganda, Tioripe sempre fazia um gesto que nunca vou esquecer: ele virava as cartas na mão, virava a aba do boné para trás, e gritava: “Truco a rôia!...” Se chamassem o truco nessa hora, era “inhambu na capanga”, três tentos vermelhos, com uma pinta preta no meio, vinham para o meu bolso.

Depois que terminou o jogo, tirei um cochilo, deitado em um banco de aroeira, sob a sombra de uma árvore frondosa. De tardezinha retornei à cidade, porque na segunda-feira o trabalho árduo sempre me espera; e o Tioripe ficou lá, na “inesquecível Fazenda Saltador”, onde ele viveu e reinou, ao lado da Tia Joana, sua amada rainha, por mais de 40 anos.

Tioripe morreu aos 68 anos de idade. Fiquei órfão de pai pela segunda vez. No dia do seu enterro, uma de suas netas, a Ilanna, chegou pertinho dele, apertou o lóbulo de sua orelha esquerda e disse, com os olhos cheios de lágrimas: “Vou matar um coelhinho no Vovô Oripe!”

 

 Ituiutaba, julho de 2009.

 

Edson Angelo Muniz.