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Ode às morenas
(Crônica intimista)

 

            Autor: Heitor Gabriel Hartmman

 

 Há momentos, na vida do homem, em que seu espírito descansa na paz de reflexões e fantasias, que dificilmente costuma trazer a público. Julga melhor guardar nos arquivos da memória essas lembranças de preferências e predileções. Mas, às vezes, pode ser interessante extravasar os sentimentos da alma, pois, do contrário, ficam emurchecidos nos arcanos do indivíduo, sem jamais virem ao conhecimento dos outros. Há de ser uma pena, em certas ocasiões. Francamente, não sei onde se enquadra o que vou revelar. Nas setenta e poucas primaveras que devo cometer em março, Deus querendo, posso afirmar, com absoluta serenidade, que sempre adorei as morenas e nunca me decepcionei com o perfume de seu calor humano.

 Por isso, digo-lhe, caro leitor, que andava melancólico e não sabia por quê. Vivia sorumbático, sem perceber a razão. Abatido, sem desvendar a causa. Ensimesmado, sem atinar com o motivo. Enfim, um maléfico mal-estar me verrumava os meandros do pensamento, sem que eu pudesse evolar-me da nebulosa em que jazia. Por que isso, meu Deus? Donde vinha tanta molemolência? Por que era prisioneiro dessa frouxidão? Para onde me levaria esse estado de ânimo? Velho solitário, enrolado em minhas idéias, mais próximas de imaginações, pensei que descobrira minha inquietude...

Primeiro, uma tênue luz emergiu na bruma interior. Pouco a pouco, a neblina desta madrugada íntima, foi esgarçando-se e sumindo lentamente do horizonte de minha vida. Logo mais, um clarão solar de canícula me queima o ser. Não consigo mais represar a compulsão interior de escrever sobre as morenas. E as de Ituiutaba, então... Por toda parte estão elas, de cabelos negros, compridos, esvoaçantes, a fascinar os transeuntes. A molemolência dengosa na lengalenga do andar, sempre mexe comigo e não me deixa em paz. O sorriso envolto de encanto e simpatia, fino e suave, embruxa o olhar de quem as contempla em sincera e espontânea admiração. Na intimidade do convívio, parecem sussurrar confidências, em delíquios de ternura e meiguice.

 Vejo-as a desfilar nas ruas centrais, num caminhar simples, natural, mas elegante, solto, cheio de graça, como se ali estivessem ao abandono, aguardando, com fina simulação, a vez de enfeitiçarem os homens que perto delas passam. Diria que são duendes. Ou bruxinhas lindas que agitam e embalam os corações de quem pousa os olhos em seu magnífico perfil. Vejo-as detidas em mesas, libando copos de cerveja, ou sorvendo refrigerantes. Borboleteiam em derredor as duas jabuticabas visuais. Os admiradores excitam-se em torno delas, tentando o privilégio de surripiar uma conferência mais demorada, olhos nos olhos. Talvez uma leve expressão facial denuncie o aceite do enlevo que ressuma tangível e é logo captado pela sensibilidade feminina.

 Dizem os maldosos que, às vezes, essas morenas graciosas espalham alfinetes nas conversas. Prefiro não acreditar nisso. Para mim, elas são anjos benfazejos, que só aninham em seus corações idéias envolvidas em carinhos e blandícias. Vejo nelas pessoas que só inspiram felicidade e amor. Chegam ao milagre de transfigurar a terra em paraíso. As delícias do além estão aqui mesmo, quando as morenas abrem sorrisos, como as flores perfumosas da manhã, ainda brilhantes do orvalho matutino. Um néctar de infinita doçura oloriza o universo de sonhos dos fãs.

Ah! As morenas... Ah! As morenas de Ituiutaba... Quem tivesse a ventura de lhes adivinhar os pensamentos que esvoaçam em suas cabecinhas de sílfides peregrinas, notaria o esbelto perfil a deslizar com a leveza das penas, em bamboleios de quadris deslumbrantes, que maravilham os passantes incautos. A mandinga dos requebros faz muitos se perderem em devaneios alucinantes, que os ejetam fora do tempo e do espaço. Essas divas da sedução feminil subjugam até os mais empedernidos celibatários. Não há quem lhes resista ao poder encantador.

Só o aconchego embriagante de uma convivência mais estreita pode entreabrir o mundo de deleite e fascínio que exalam essas deusas, ladras de corações desprevenidos. Quantos não sonham em verem-se roubados por elas, as divinas morenas!

 

 

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Rac... Rac... Rac...

 

Autor: Heitor Gabriel Hartmman

 

Um ruído impertinente: rac...rac...rac... Repetia-se, de instantes em instantes: rac...rac...rac... Pior de tudo – só acontecia de noite, tarde da noite, quando as luzes em volta já estavam apagadas. Escuridão total. Breu. Lá ressurgia: rac...rac...rac...O que pensar disso? O que fazer? Mil suspeitas...Um horror! De novo — rac... rac... rac... 

A imaginação, incontida, irrefreável, se expandia, se alargava, se encolhia. O que será? Talvez um ladrão... Ele vai indo por etapas noturnas...escavações em paredes... Se for um larápio, toda cautela é pouca. Está disposto a matar e eu não quero morrer, apesar de meus 60 anos. Não sou covarde, mas sou prevenido. E lá voltava o som rascante: rac...rac...rac... Aquilo martelava um prego na minha cabeça. Ele ia afundando na cachola, pior que faca na carne.

 Sempre tarde da noite. Aflito, erguia-me da cama e, pé ante pé, descalço — para evitar o arrasto das chinelas —, apalpando as paredes assustadas, ia vasculhando o ambiente. Era até fácil...apenas duas peças. Difícil era descobrir de onde, de que parte vinha o som de erres torturantes: rac...rac...rac... Viria de dentro esse barulho? Ou viria de fora? Enganador, esse ruído... Parecia estar em todos os cantos. Aquela pua verrumava-me os ouvidos atormentados: rac...rac...rac...

Nos primeiros dias, aliás, nas primeiras noites, o estribilho rascante não era tão pungente. Com o passar do tempo, aquilo virou uma obsessão aterrorizante. O que seria, meu Deus? A fantasia brotava solta. Quem sabe a passagem de uma barata na ponta de uma folha pendente, que se friccionava num livro, ou página dele? Afinal, o barulho da esfregadela na quina de um papel, é também rascante. Ou seriam as andanças noturnas de um rato errante , com paradas roedoras? Quiçá um morcego hematófago, prestes a me sugar o sangue? Como saber? 

Noite emenda noite e minha caça inútil aos possíveis ladrão, barata, rato, morcego. E nada, nada, nada. Como detectar a origem desse rac...rac...rac...?Os cabelinhos de minha pele se arrepelavam, em arrepios tremelicantes. A impressão que eu tinha era de que os ralos fios da cabeça eriçavam-se também, movidos pela incerteza. Não agüento mais o tormento. Uma espécie de frenesi psicótico tomava conta de mim. Era quase um delírio... 

Ideias de riscos pululavam na mente, originadas do mistério, do desconhecido, do rio indomável de minha fantasia, a fluir na selva densa de minhas cogitações. Virei neurótico. Com os amigos, procurava disfarçar o nervosismo. Nem comentava o problema. Guardei segredo fechado. Pior. Minha cabeça parecia querer explodir. Mil hipóteses começaram a me tumultuar o cérebro, como a arrojar-se aos borbotões, num remoinho de crise íntima profunda. 

Perdi minha autoconfiança. Nesse rodopio absurdo entre minha racionalidade poderosa e o mar de incertezas criado, houve um choque traumatizante. Veio a insônia. Noites e noites mal dormidas. Que situação mais besta! Tinha de desvendar essa loucura, ou ela me levaria à demência mais ridícula. Sou um homem racional, acima de tudo – repito. “No creo em brujas.” Aí vinha o rebate psicológico: “Pero que ãs hay, ãs hay.” Estava meio perdido. 

Decididamente, não dava mais para continuar assim. Isso tinha de ser descoberto, em definitivo. Cheguei ao extremo de minha estrutura psíquica. É hoje que resolvo a questão. Deitei-me à meia-noite. Aí pela meia hora, o som rascante arranhou o silêncio: rac...rac...rac... Levantei-me firme, resoluto. Pé ante pé, fui escarafunchando o espaço, envolvido na mais negra escuridão. Vou terminar com meu drama. Hoje, será o fim. Ou endoideço de vez... 

Mesmo no breu da madrugada — que as horas se iam esvaindo — fui avançando na busca. Varri, dedo a dedo, minhas duas peças, num tatear sem temor. Nada, nada, nada. Fui à parte externa. Eu queria uma solução, viesse de onde viesse, mesmo que fosse dramática, trágica, ou até fatal. Minha angústia era demais. Dei volta às duas peças de minha moradia, por fora. O rac...rac...rac... ronronava. Em algum lugar, ali perto. Levei um susto enorme ao pisar sobre uma lata imensa, em cima de uma caixa-de-gordura. Fez um barulhão. O rac... rac... rac... cessou de imediato.  É aqui, pensei. Sem titubear, levanto a tampa de lata. Um bicho acuado salta de dentro, em cheio no meu rosto, aos guinchos de susto. Um ratão repugnante, diferente, orelhudo. Ao cair no chão, sumiu. Com ele, sumiu também a minha ânsia, a minha angústia, a minha agonia. E talvez, leitor, a sua curiosidade. 

 

 

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